Futebol se joga na praia,
futebol se joga na rua,
futebol se joga na alma.
A bola é a mesma: forma sacra
para craques e pernas-de-pau.
Mesma a volúpia de chutar
na delirante copa-mundo
ou no árido espaço do morro.
São voos de estátuas súbitas,
desenhos feéricos, bailados
de pés e troncos entrançados.
Instantes lúdicos: flutua
o jogador, gravado no ar
- afinal, o corpo triunfante
da triste lei da gravidade.
Carlos Drummond de Andrade
In Quando é dia de futebol, Editora Record.
sexta-feira, 18 de junho de 2010
Saramago
Hoje o escritor que pintou em versos o Retrato do poeta quando jovem se foi, aos 87 anos. Muito já foi dito sobre Saramago, sobre o modo como revisitou a história de Portugal, e sobre a importância de sua obra para uma visão crítica dos problemas vividos pelo seu país. Mas para além das grandes preocupações temáticas que caracterizam seu universo ficcional, em seus escritos, há um tempo-lugar para o pequeno, ou para simplesmente as memórias sem lugar. Isso, a meu ver, é o que há de mais instigante neste autor. A audácia de Saramago não foi a de escrever poemas engajados ou romances que giraram em torno de temas políticos e sociais. A ousadia do escritor foi a de abrir sua obra para as interrogações do humano, enredando o leitor em parágrafos longos, sem ponto final, aspas ou travessão. A arquitetura dessa linguagem é quase como uma forma de respiração, um sussurro prolongado.
Ateu convicto, Saramago não temia a morte: “Não temo a morte – isso sim dói – é que a pessoa estava e de repente deixou de estar, se acabou”.
Mas, no espaço “curvo e finito da vida”, o escritor possuía uma estranha consciência de não ser:
Espaço Curvo e Finito
Oculta consciência de não ser
Ou de ser num estar que me transcende,
Numa rede de presenças e ausências,
Numa fuga para o ponto de partida:
Um perto que é tão longe, um longe aqui.
Uma ânsia de estar e de temer
A semente que de ser se surpreende,
As pedras que repetem as cadências
Da onda sempre nova e repetida
Que neste espaço curvo vem de ti.
In Os Poemas Possíveis, Editorial CAMINHO, Lisboa, 1981, 3ª edição.
Retrato do poeta quando jovem
Há na memória um rio onde navegam
Os barcos da infância, em arcadas
De ramos inquietos que despregam
Sobre as águas as folhas recurvadas.
Há um bater de remos compassado
No silêncio da lisa madrugada,
Ondas brancas se afastam para o lado
Com o rumor da seda amarrotada.
Há um nascer do sol no sítio exacto,
À hora que mais conta duma vida,
Um acordar dos olhos e do tacto,
Um ansiar de sede inextinguida.
Há um retrato de água e de quebranto
Que do fundo rompeu desta memória,
E tudo quanto é rio abre no canto
Que conta do retrato a velha história.
In OS POEMAS POSSÍVEIS, Editorial CAMINHO, Lisboa, 1981. 3ª edição
Ensaio audiovisual sobre fotos de SEBASTIÃO SALGADO e narrativa de JOSÉ SARAMAGO.
Áudio original extraído do documentário JANELA DA ALMA de João Jardim e Walter
Carvalho (Brasil, 2001).
Trilha incidental: Hélio Delmiro ('Emotiva')
Adaptação e montagem: PEDRO BERSI (SC Brasil) souzabersi@hotmail.com
WindsFilmesBRASIL 2007
"Eu não quero dizer que cada um é conforme nasce - não vou a esse ponto. Mas, talvez devêssemos ponderar por que algumas pessoas resistem ao comportamento digamos universal -- o modo de comportasse mais geral - e outras não? Por que algumas pessoas mantêm uma atitude crítica em relação às coisas? Por que algumas pessoas acham que não é por fato das coisas serem novas ou modernas que elas são necessariamente boas? Isto não é defender o antigo... é simplesmente considerar que não tem nenhuma razão para acreditar que no momento em que estou a viver é o momento em que todas as coisas que se estão a fazer - as de agora e as que vão ter efeitos no futuro - são as únicas e as melhores que poderiam estar a ser feitas e a ser pensadas, imaginadas e aplicadas. Não tenho qualquer razão para isso, pelo contrário, tenho muitas razões que me dizem que nos tomamos por um caminho errado."
Por JOSÉ SARAMAGO
segunda-feira, 14 de junho de 2010
Os poetas e as coisas
Coisa é tudo o que há. É tudo quanto existe. É o que é: concretude do circunstancial; materialidade das imagens, dos objetos.
Da memória das coisas:
A presença das coisas em Drummond é matéria de poesia. O poeta se deixa contagiar por objetos, imagens, memórias. A palavra-coisa condensa a própria experiência do mundo.
Resíduo
De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco.
Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).
Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.
Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
― vazio ― de cigarros, ficou um pouco.
Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.
Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.
Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?
Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.
De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil...
De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver... de aspirina.
De tudo ficou um pouco.
E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.
Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.
Também como um poeta das coisas, Manuel de Barros adquiriu “o vício de amar as coisas jogadas fora”, como Duchamp, ele transforma matéria viva em poesia. O desimportante ganha destaque. O mundo é revirado. Surgem do imundo “os loucos de estandarte”.
Desejar ser
8.
Nasci para administrar o à-toa
o em vão
o inútil.
Pertenço de fazer imagens.
Opero por semelhanças.
Retiro semelhanças de pessoas com árvores
de pessoas com rãs
de pessoas com pedras
etc etc.
Retiro semelhanças de árvores comigo.
Não tenho habilidade pra clarezas.
Preciso de obter sabedoria vegetal.
(Sabedoria vegetal é receber com naturalidade uma rã no talo.)
E quando esteja apropriado para pedra, terei também sabedoria mineral.
IX
O poema é antes de tudo um inutensílio.
Hora de iniciar algum
convém se vestir de roupa de trapo.
Há quem se jogue debaixo de carro
nos primeiros instantes.
Faz bem uma janela aberta.
Uma veia aberta.
Pra mim é uma coisa que serve de nada o poema
Enquanto vida houver
Ninguém é pai de um poema sem morrer
Manoel de Barros
"Desejar Ser"
In Livro Sobre Nada (1966-1998)
Ed. Record, 3a. ed., Rio de Janeiro, 1996
O divino nas coisas
Marc Chagal: Aniversário, 1915
Marc Chagal: Telhados de Paris
Marc Chagal: Eu e minha aldeia, 1911
As raízes de Marc Chagal estão mergulhadas na visão de mundo das comunidades judaicas da Europa Ocidental do final do século XIX, em especial, no Hassidismo, movimento espiritual que afirma a presença divina em todas as coisas.
Nas telas do pintor tudo é possível, a alteração concreta da realidade se dá em um território mágico que desfaz qualquer fronteira entre a objetividade do real e o universo dos sentimentos místicos. A poética de Chagal, cara ao movimento surrealista, é a própria exaltação do inconsciente, do ilógico. Em suas telas as coisas estão interligadas, e o presente é também a lembrança do passado. A fantasmagoria das cidades é pintada com poesia e afeto.
A tradução das coisas:
Nas coisas existe um núcleo que resiste a qualquer tradução. Esse núcleo nos remete àquilo que costumamos chamar de “poético” e é o que leva o tradutor a ultrapassar a sua intenção imediata – muitas vezes fracassada – de traduzir um texto original para também poetizar.
Esse aspecto material da linguagem lembra-nos do que Benjamin dizia sobre a criança que entra nas palavras como quem entra em cavernas, criando caminhos estranhos em um universo a ser explorado. Algo parecido com o percurso do poeta/tradutor quando penetra na linguagem, criando seus caminhos, suas errâncias.
De olho no olho da rua
Moita
Ontem, nem oito da noite, vi um casal trepando dentro de um fusquinha creme numa rua semideserta atrás de casa. O mais curioso é que a ruazinha dá pros fundos de um motel. As janelas do fusquinha estavam abertas, só consegui ver a sombra de uma das caras, que se levantou quando ouviu passos, o que fazer nessas horas? O negócio parecia bastante animado. O vigia da rua assistia tudo como é comum dos vigias assistirem tudo: com cara de averiguação. Alguns viralatas ao redor também. Dois deles, inclusive, cheiravam os pneus do carro. A vida real é muito convincente.
Entre achados e perdidos da vida como ela é o real nunca é muito convincente, mas não se pode duvidar de um vigia com cara de averiguação, farejando a cena de um casal trepando dentro de um fusquinha creme em uma rua semi deserta que dá para os fundos de um motel.
Daí em diante tudo é matéria de história nessas imagens-memória.
Foi dito por Paulo José que Um navio no espaço ou Ana Cristina Cesar poderia ser visto como uma louvação a obra da escritora Ana Cristina Cesar. No entanto, o espetáculo é mais que o culto a uma personalidade literária. Para além dos clichês e das fórmulas encontradas nas literatices teatrais atuais essa montagem incorpora a forma fragmentada da escrita da poeta em textos-colagens, construídos das sobras de um sujeito estilhaçado.
A atriz Ana Kutner, filha de Paulo José, é quem interpreta e narra a breve, mas intensa, trajetória de Ana Cristina César.
No cenário, o ato de escrever é reproduzido com videografismos e animações que recriam a forma como a poeta desenhava, datilografava ou rascunhava os seus textos transformando-os em uma espécie de palimpsesto. A inserção do audiovisual no espaço cênico proporciona ao público uma visão cubista do espetáculo.
A platéia se emociona com a atuação de Paulo José e com a trajetória da escritora em versos como:
Acreditei que se amasse de novo
esqueceria outros
pelo menos três ou quatro rostos que amei
Num delírio de arquivística
organizei a memória em alfabetos
como quem conta carneiros e amansa
no entanto flanco aberto não esqueço
e amo em ti os outros rostos
Pergunto aqui se sou louca
Quem saberá dizer
Pergunto mais se sou são
E ainda mais, se sou eu.
segunda-feira, 7 de junho de 2010
M
EM UDO
T
FAL A
Escrito por Eloiza Gurgel
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Escrito por Eloiza Gurgel
segunda-feira, 31 de maio de 2010
John Baldessari: Escolher e organizar
À Fernando Pessoa
Nas folhas arrancadas dos livros as memórias são reverenciadas.
Nos altares cravejados de cacos coloridos o olhar herege é seduzido em meio aos vermelhos e dourados, a embriaguês das curvas enviezadas e emaranhados do tempo. Caixinhas guardam objetos que esperam fechados, avarentos. Têm o tempo pesado das coisas. Em imagens o mundo se move. Pensar é estar doente dos olhos.
Tempo circular – paisagens luxuriantes. Vertigem carrossel carnaval. Olhar para si em um caleidoscópio. O abismo das coisas é redondo. As ruas dentro das casas, as casas nos armários, pessoas em gavetas, janelas para dentro, o dentro no fora. O pipoqueiro... Altares são reverenciados. Nas cores do asfalto faíscas de TV. Nas cordas vocais de uma cidade que se reveste toda de tempos, migalhas de instantes. Nas janelas de coisas apartamentos quaisquer.
Alguém dorme ou está me vendo ou andando em casa, nas ruas dentro de casa se esconde nos armários avarentos arrancam folhas dos livros.
Não sou nada, nunca serei nada, não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Escrito por Eloiza Gurgel
De dentro do noticiário:
Um pipoqueiro corta a favela, espancado e queimado à beira da Avenida Brasil.
O ambulante risca o mundo, se arrisca mudo
ainda marcado a ferro e fogo com as iniciais de uma facção criminosa.
De dentro das casas:
O mistério em quem mora. O que há da vida nas cores dos fios das coisas?
Para dentro da favela:
Vê-se os destroços da carrocinha
Visto assim do alto mais parece o céu no chão, sei lá não sei, sei lá não sei não...
A exuberância de uma imagem violenta, terna e absurda ensurdecedora dos olhares que atravessam os jornais.
Escrito por Eloiza Gurgel
sexta-feira, 28 de maio de 2010
PIPOQUEIRO
Indissociável das luzes significantes da respiração das ruas, fantasmagoria do cotidiano das cidades. Parte da paisagem urbana desaparece reaparece como se nunca tivesse existido. Algo se inscreve nas ruas como puro sabor. Vê-se um cheiro seco, amarelecido. Aparentemente eu vi. O carrinho metálico de tons enferrujados, lâmpada acesa em um poema sujo. As cidades com cheiro de pipocas são mais humanas. Apesar da compressão do tempo, existe um pipoqueiro em cada esquina. Isso é uma forma de não dizer. É só aparentemente um cheiro.
Esrito por Eloiza Gurgel
sábado, 1 de maio de 2010
Abrindo o dia
Nos delírios da metrópole explodem,
implodem, se fodem. Nos delírios se
podem, as fronteiras se dissolvem.
É noite.O derramamento lírico do
leite escorrendo dos seios das
putas pelo chão arrasta a sujeira
ferruginosa de lágrimas loucas
delírios vãos, na metrópole explodem,
implodem, se fodem. As fronteiras se
dissolvem em uma gargalhada abrindo
o dia despencando a noite e as suas
sucatas ecos de coisas parcas retorcidas
de ferros. Copacabana subterrânea a céu
aberto nas suas estrelas de neon se
fodem nas galerias a meio fio na corda
bamba de um dia a noite despenca dos
seios das putas o salto alto do sapato
quebrou. Nos delírios da metrópole
o pipoqueiro ensangüentado do sal
de chuva desespero ácido explode.
Afetação mundo cadela nos embrulhos
de jornal o cotidiano estilhaçado,
as fronteiras se dissolvem em uma
gargalhada abrindo o dia. É sábado.
Escrito por Eloiza Gurgel
domingo, 7 de março de 2010
Um dia de morte
O querer não tem lugar, e as estrelas se deslocam do seu centro estridentes, sem vontade, sem palavras, sem dor, sem porque nem pra quê, sem glórias e sem saudades. A senhora caminhava em direção àquele portão enferrujado que em outros tempos era dourado e brilhava quando o sol batia em frente à casa.
Tudo havia em outros tempos e a senhora ali parada corria os dedos no portão enferrujado. Era um dia de morte sem defunto. Sem eira nem beira, sem ninguém pra abrir a porta. Apenas a espera de um acontecimento, já que aquela casa não era sua, nunca havia sido parte de um passado que poderia ser considerado seu.
Mas agora ela estava ali. Como se sua história estivesse sendo contada a partir daquele portão. Como tudo que naquele momento estava sendo desenhado; a luz do sol de ferrugem na calçada; os cacos da vida; os carros; as buzinas e os silêncios; uma árvore suja com a fuligem cinza da fumaça dos ônibus.
Logo vieram os insetos e os cheiros da noite.
Palavra quebrada jogada no chão pontua o caminho andante sem alma. Pedrada na testa quebrada palavra pedaço de estrada na descaminhada.
Nada havia seu: ventania do Deus morto.
É assim pela porta trancada que se vê-entre-vê o escuro da casa. E a senhora continuou esperando na noite o que não se sabe. Derrotada pelo cansaço, sentou-se na calçada a meio fio da rua, das buzinas, dos passantes, do pipoqueiro... As pedras em volta da árvore pareciam seus pensamentos, pequenas calcificações, imagens cristalizadas.
Sempre acontecia e naquele dia não foi diferente. De novo as alucinações. Agora o olhar fixava-se nas janelas da casa descascada de pintura sem pintura; havia limo nas paredes. Casa que era sem ser, fechada. A senhora levantou-se, virando-se, em um gesto que assustou o rapaz que caminhava por ali.
Palavra quebrada no chão. A rua era silêncio, mas a senhora alucinava e pedia a alguém invisível que lhe entregasse a chave e os livros. Coisas esquecidas em um tempo remoto, só existentes ali, momento em que o invisível poderia recuperar o que havia sido perdido.
Vida quebrada, palavra no chão, tempo visível no invisível. Um dia que se foi fora dos trilhos, fora de dentro, à margem do tempo, à margem de casa e de tudo na rua.
Se você não pode me devolver o que te peço, volto outro dia, disse a senhora olhando o invisível. Nunca mais voltou. Nem o pipoqueiro soube notícias suas.
Escrito por Eloiza Gurgel
NO OLHAR DO POETA: vídeo ensaio sobre a poesia "O que os olhos devoram" do poeta Èzio Pires.
Esse tecido conectivo que é o olhar, que nos põe em relação com o mundo, é o que possibilita que as imagens estejam diante e dentro de nós, em um perto-longe, nessa dupla distância ou nesse trânsito em que vemos no visível o invisível. Nada está apenas presente ou ausente. O que existe são rastros.
Escrito por Eloiza Gurgel
À TOA JÁ
N E L A S E S P E R A S
Escrito por Eloiza Gurgel
Em despedidas me perco nas crateras da internet .
Em tempestades de dowloads digite-me, visite-me, delete-me,
deleite-me, arquive-me.
RUÍNAS VIRTUAIS:
O TEMPLÁRIO DESOLADO OLHOU PARA AS ESTRELAS
CHOROU COMO UMA CRIANÇA
ESSE TERREMOTO CÓSMICO DUROU DOIS SEGUNDOS
A memória é uma ilha de edição - umqualquer passante diz, em um estilo nonchalant e imediatamente apaga a tecla e também o sentido do que queria dizer.
Waly Salomão: Carta aberta a John Ashbery
SOBRE O BLOG
Recentemente chamou-me atenção a fala de um poeta nordestino em um programa de televisão, no qual discutia-se porque as pessoas escrevem poesia. A resposta do poeta entrevistado foi: escrevo por que me sinto aperreado.
Nesse estado de angústia há uma urgência de linguagem que, para autores como Walter Benjamin, seria a própria urgência em traduzir o mundo.
É isso. Aqui, sinto certo aperreio quando escrevo e, se assim o faço, é pela necessidade de traduzir o que vejo oxigenando lembranças, colecionando pensamentos.
Este blog é uma coleção de imagens e textos variados que não tiveram lugar em conversas com amigos, na minha tese de doutorado ou naquilo que se vê e não se fala no dia a dia.
Doutora em educação pela Universidade de Brasília UNB e artista plástica. Colecionadora de escritos e imagens. Remixadora de palavras, espantos e sonhos.
Contato: eloizagurgel@uol.com.br